Friday, October 29, 2010

Ela tinha um hábito horrível, quando era mais nova, de se sentar na cama, abraçando as pernas pelos joelhos, balançando-se para a frente e para trás a chorar baixinho. Era a única forma de conseguir esconder toda a angústia que lhe corria nas veias, dentro das quatro paredes do seu quarto. Ali era o seu porto seguro, o único sítio onde permitia a si própria derramar lágrimas e pensar em todas as coisas que não a deixavam dizer ou fazer. Dentro daquelas quatro paredes ficavam todos os seus segredos, todas as suas fantasias vistas pelos outros como infantilidades impossíveis e sem valor. Por todo o lado tinha caixas e cadernos escondidos com todos os seus segredos, todos os seus desejos, todos os seus ódios e todas as palavras que nunca pudera dizer. Nada nem ninguém podia violar o seu pequeno universo caótico. Nada nem ninguém podia mexer nas suas coisas, as únicas que podia efectivamente chamar suas. A sua alma estava espalhada por todos aqueles objectos mundanos e todos os seus segredos estavam ali escondidos.
Quando saiu de casa decidiu ser a pessoa que sempre quisera. Tentara a todo custo abrir-se ao mundo. O caminho seria demasiado tortuoso para se permitir percorrê-lo com grandes passadas, mas chegaria lá com passos pequenos, uns atrás dos outros.
Descobriu que lá fora havia quem estivesse disposto a ouvi-la, a ver-lhe as lágrimas escorrer pela face e animá-la com um simples abraço. Foi um alívio descobrir quem não a julgasse, quem a aceitasse como ela era, quem a tratasse como uma igual. O mundo conseguira tirar-lhe o hábito de baixar os braços e reduzr-se às suas quatro paredes e áquele gesto que a consumia por dentro, aquele baloiçar involuntário que a fazia soluçar baixinho enquanto sentia o corpo encher-se de ódio e terror. Deixára isso para trás com prazer, uma parte de si que a fizera sentir-se mínima e infeliz a maior parte da sua vida. Não pensára mais naquilo, deixára-o para trás nos confins mais negros da sua mente.
Agora, adulta, começara a sentir de novo as palavras presas na garganta. Uma indescritível sensação de falta de controlo começára a tomar posse dela e as palavras começavam uma vez mais a fluir apenas no papel. Sentia a angústia aumentar à medida que ía deixando de se conseguir expressar com a voz. Lutára a todo o custo para não voltar a percorrer aquele caminho, mas a fala abandonára-a. Não conseguia dizer o que lhe ía na mente e o papel tornára-se de novo o seu único confidente.
Sentiu-se perder completamente e acabou por se deixar levar por velhos hábitos.
O desespero já lhe mostrára a face várias vezes, mas ela tentára ignora-lo. Naquela noite ele rodeou-a, prendendo-a num abraço gélido. Involuntariamente, sentou-se na cama, deixando as lágrimas cair, abraçou as pernas pelos joelhos e começou a baloiçar. Os olhos ardiam, o coração apertava e num segundo, os muros que levaram anos a ruir, estavam de novo de pé.
Sentiu-se sufocar, baixou os braços e deixou-se ficar, escondida do mundo, dentro das suas quatros paredes.

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