Saturday, October 09, 2010

Uma casa, pequena, simples. Paredes nuas, excepto uma, toda ela coberta de fotos de paisagens e pessoas, momentos emoldurados, para sempre marcados no coração dela. Em cima das mobílias algumas molduras, figurinos, caixas, objectos carregados de recordações, criando uma ligação quase visível com a sua dona. No ar, uma energia mágica, quase palpável, uma sensação de calor que acompanha o fogo que arde na lareira.
Ela esta encostada à parede, olhando pela janela com uma chávena de chá bem quente na mão. A chuva cai lá fora, mas não é uma chuva dura e barulhenta, é uma chuva meiga, que vai escorrendo pelo vidro como um rio em direcção ao mar. Tem vestida uma camisola de lã, comprida, larga, confortável, e umas calças de ganga, gastas, alguns rasgões aqui e ali. Os chinelos que tem calçados são a cereja no topo do bolo no que diz respeito ao seu conforto. A roupa acenta-lhe como uma luva, parecendo abraça-la com carinho. Fechando os olhos, quase consegue sentir o calor de dois braços à sua volta. Por instantes, agarra-se a esse pensamente e sente o seu corpo aquecer com o simples pensamento.
Abre os olhos, e vê o céu cinzento lá fora, a chuva escurecendo o pavimento. Uma brisa fria entra pelas frestas da janela e gela-lhe o corpo.
Em passo rápidos, aproxima-se da lareira e senta-se no sofá. O comando quase lhe salta para as mãos, mas ela passa pelos canais monotonamente. Não está a dar nada interessante.
Espreita os livros pelo canto do olho e sente-se levar para um mundo de sonhos. Vê palavras passar por ela, por entre um cenário frio, branco, vazio. E de repente está sentada na beira de uma estrada, com o sol a brilhar bem alto.
Baixa o olhar das nuvens e sente as suas mãos tocaram o chão. A relva entranha-se entre os seus dedos e ela aperta-a fazendo-a largar o seu aroma, amargo, fresco e revigorante. Ela inspira profundamente e o ar puro quase lhe fere os pulmões. Deixa-se cair e estendida na relva sente o ar inundar todo o seu ser e sente a energia correr pelo seu corpo, chegando a todos os recantos.
Ao longe ouve um som ritmado que se aproxima rapidamente. Abre os olhos e apoia-se nos seus cotovelos, olhando o horizonte.
Um cavalo aproxima-se com o seu pêlo negro a reluzir. Passa por ela como um foguete, levantando pó e fazendo o cabelo dela voar. O pó faz um remoinho à volta dela. Ela tosse e tenta afastar o pó com as mãos, mas ele não se afasta. Ela olha à sua volta e começa a sentir-se presa, como se tudo estivesse a mover-se na sua direcção. A sua respiração torna-se mais e mais ofegante, o seu coração bate mais e mais depressa. Ela encolhe-se e fecha os olhos, pensando que aquilo é tudo um sonho.
Nada. Vazio. Silêncio.
Um som, surge do nada. Come se tivessem encostado uma concha ao seu ouvido ela ouve o mar e o seu vai e vem constante acalma-a, como uma melodia.
Ainda de olhos fechado sente os seus pés enterrarem-se na areia. O ar à sua volta está ligeiramente fresco e o perfume, aquele aroma típico da praia, parece abraça-la.
De novo aquela sensação. Um par de braços a circundá-la, uma respiração quente no seu pescoço, o calor de um corpo preso no seu.
Um suspiro profundo apoderou-se dela. Os sons à sua volta desapareceram, o perfume no ar também. Ela abre os olhos e vê o fogo que arde na sua lareira, sente o seu calor, olha o chávena de chá caída no chão.
Com um sentimento algo melancólico apoderando-se do seu peito, ela olha em volta. Está em casa e está só.
Em gesto de desconsolo volta-se para a tv e pega no comando.
Alguém bate a porta e ela sorri.

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